Sunday, September 07, 2008

V de vingança. V de Veja.


Ao lado: Elias sobe na carruagem de fogo. Eliseu observa. O 'careca' devia subir?


Dá até desânimo. Começo a ler a matéria de capa de "Veja" (Edição da semana passada – 2076) e de cara 'vejo': O artigo joga luz desfavorável na Bíblia. Pior, a introdução assinada por Thomaz Favaro é pra lá de tendenciosa e apresenta um "Velho Testamento" (que na minha opinião é uma obra clássica contra o conceito de vingança) "repleto de passagens "olho por olho"".
Como exemplo de passagem sobre vingança o jornalista, bancando o engraçado, cita 2 Reis: "Nenhuma tão constrangedora quanto aquela em que o profeta Eliseu é chamado de "careca" por um grupo de crianças e, em resposta, manda dois ursos sair da floresta e despedaçar 42 criancinhas. Deve ser o único caso registrado em que uma peruca teria evitado uma carnificina." E para deixar claro que o negócio é atirar pedras contra a religião, o sujeito sacramenta: "Como instituição, a religião é má conselheira nestes casos (...) Para entender a origem do desejo de vingança e aprender a domá-lo, o melhor a fazer é trafegar por fora da religião".

Eu não sei se é piada ou se o cara cita a Bíblia de segunda mão. O fato é que nem tive vontade de continuar a ler o artigo. Afinal, se já começa com essas bobagens, pra quê perder tempo?

Lei do talião
Primeiro, o Velho Testamento não está “repleto de passagens “olho por olho”” coisa nenhuma. Ao contrário até! O “olho por olho” do Velho Testamento é apenas uma lei do código penal dos antigos hebreus. A citação é de Êxodo 22:22-25: E caso homens briguem entre si, e eles realmente firam uma mulher grávida e deveras saiam os filhos dela, mas não haja acidente fatal, sem falta se lhe deve impor uma indenização segundo o que o dono da mulher lhe impuser; e ele tem de dá-la por intermédio dos magistrados. 23 Mas se acontecer um acidente fatal, então terás de dar alma por alma, 24 olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, 25 queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, pancada por pancada."
É a base da famosa lei do talião e nada tem a ver com a vingança que o artigo se propõe a expor e discutir. Na Bíblia há raros casos de aplicação dessa lei (justíssima, por sinal). Pouca gente sabe que também havia lei específica que contemplava exceções a regra. E se alguém matasse outra pessoa de modo não intecional? Era simplesmente “olho por olho”? Nada disso! Veja o que diz a repetição da lei em Deuteronômio 19:4-7: 4. Eis a regra a seguir para o homicida que ali se refugiar, procurando salvar sua vida. Se matou o seu próximo por inadvertência, sem ódio prévio, 5. como, por exemplo, se ele tiver ido à floresta com outro cortar lenha e, no momento de brandir o machado para abater a árvore, o ferro se tenha deslocado do cabo e ferido mortalmente o seu companheiro, esse homem refugiar-se-á em uma dessas cidades para salvar sua vida. 6. De outra forma, o vingador do sangue , no ardor de sua cólera, poderia perseguir o homicida e, se o caminho fosse muito longo, atingi-lo para dar-lhe o golpe mortal. Entretanto, esse homem não merece a morte, pois que não tinha ódio da vítima. 7. Eis por que te ordeno reservar três cidades.
O tempo não me permite detalhar isso. Mas a coisa funcionava assim: se um hebreu matasse outro acidentalmente, ele tinha de fugir para uma das três cidades refúgio do país. Ali ele tinha de permanecer para não receber a punição do “olho por olho”. Os versículos seguintes do mesmo capítulo indicam que tudo era julgado pelos ancião da cidade onde o caso ocorreu. O “vingador do sangue” era alguém que tinha o direito legítimo de exigir a morte do assassino. Alguma coisa a ver com texto "repleto de passagens "olho por olho""? Só na cabeça do autor do artigo mesmo!

Sobe, careca!
Para piorar o sujeito cita como exemplo o caso do profeta Eliseu. Um típico caso de ‘analfabetismo bíblico’! O sujeito esconde dos leitores o contexto. Em primeiro lugar, nos tempos bíblicos, crianças eram responsáveis por seus próprios atos. Muito embora existissem leis específicas voltadas para os pequenos, o fato é que eles (ou seus pais) tinham de responder por seus erros. Em Ezequiel 9:6 lemos:Velhos, jovens, moços, moças, crianças e mulheres, matai todos até o total extermínio; precavei-vos, todavia, de tocar em quem estiver assinalado por uma cruz. Começai por meu santuário. Começaram pelos anciãos que encontraram defronte ao templo,.
Aos nossos olhos modernos pode parecer cruel, mas não o era nos tempos bíblicos. Crianças também pagavam por seus erros.
Mas chamar alguém de careca é pecado? Que exagero, Blogildo! O ponto é que os erros dos guris nada têm a ver com a calvíce de Eliseu!
A passagem se encontra em 2Reis 2:23, 24: Dali subiu a Betel. Enquanto ia pelo caminho, saíram da cidade alguns rapazes, e puseram-se a zombar dele, dizendo: Sobe, careca; sobe, careca! 24. Eliseu, voltando-se para eles, olhou-os e amaldiçoou-os em nome do Senhor. Imediatamente saíram da floresta dois ursos e despedaçaram quarenta e dois daqueles rapazes.
O autor não cita o contexto. Nesse mesmo capítulo, alguns versículos antes, sou informado que o profeta Elias – mentor de Eliseu – estava passando o bastão, por assim dizer, ao seu pupilo. Antes de deixar suas vestes de profeta para Eliseu( o que indicava que Eliseu continuaria o trabalho de Elias) o texto diz: Tendo passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me algo antes que eu seja arrebatado de ti: que posso eu fazer por ti? Eliseu respondeu: Seja-me concedida uma porção dobrada do teu espírito.
10. Pedes uma coisa difícil, replicou Elias. Entretanto, se me vires quando eu for arrebatado de ti, isso te será dado: mas se não me vires, não te será dado.
11. Continuando o seu caminho, entretidos a conversar, eis que de repente um carro de fogo com cavalos de fogo os separou um do outro, e Elias subiu ao céu num turbilhão
.

Elias era bem conhecido como profeta. Algumas passagens envolvendo Elias estão entre as mais curiosas ( e até divertidas ) do Velho Testamento. Sabe-se que Elias era odiado e temido por muitos. Quando Elias “subiu” aos céus num carro de fogo o evento ficou conhecido. Não sei se só Eliseu testemunhou o evento. Ao gritar “sobe, careca” os jovens – talvez influenciados pelo meio onde viviam – mostravam desrespeito para com um profeta. Tudo indica que aludiam ao fato de Elias ter “subido” e zombavam de Eliseu para que ele fizesse o mesmo. Um desafio as credenciais de Eliseu como profeta.
O sujeito que se propõe a criticar a Bíblia numa matéria que objetiva falar da vingança e não deixa claro que a lei dos hebreus a proibia expressamente só pode ser um desonesto intelectual. Diz Deuteronômio 32:35: Minha é a vingança e a retribuição.No tempo designado cambaleará seu pé,Porque está perto o dia do seu desastre E se apressam os eventos que os aguardam.’ Ou seja, qualquer vingança só pode vir através da mão de Deus.

É claro que há casos de vingança na Bíblia. Mas isso fica para outra hora. Mas o fato do autor aparentemente desconhecer esses casos - tanto que não os menciona - só revela sua ignorância de proporções bíblicas.


8 comments:

Magui said...

Um ignorante porque Jesus veio para ensinar o perdãao e apagar essa fase. Quando leio a VEJA tenho engulhos.Um horror de gente com a libido com defeito.De dar dó.

Roni said...

Blogildo, quem está distorcendo tudo é você. A zombaria dos jovens não se referia à subida aos céus numa carruagem de fogo ou coisa parecida. Elizeu estava subindo uma colina: "Então, subiu dali a Betel; e, subindo ele pelo caminho, uns rapazes pequenos saíram da cidade, e zombavam dele, e diziam-lhe: Sobe, calvo, sobe, calvo!". Não só a Lei de Talião é o próprio estatuto da vingança pessoal, como também é verdadeira a assertiva de que as religiões, em geral, são modelos para procedimentos vingativos. Veja-se o islamismo, por exemplo, cujo livro sagrado é um receituário de ódio e de guerra contra os infiéis. E veja-se o saldo concreto do cristianismo, durante séculos, não obstante o discurso benigno e benevolente atribuído a Jesus...
Sou apenas leitor de Veja. Achei esse blog por acaso, pesquisando o texto bíblico para conferir a citação da revista. Se esse é um blog religioso, peço desculpas: não quero me envolver em discussões com quem está usando a fé e não o raciocínio. Respeito e me calo.
Sebastião de Olaria

Blogildo said...

Não é um blog religioso, Roni. É Blog do Onildo e nada mais que isso. Mas falo bastante de religião e tenho fé! Não vejo necessariamente uma oposição entre razão e fé. Mas não creio que uma seja superior a outra. Razão e fé são complementares.
Antes que algum mané me encha o saco, já vou te avisando, sou testemunha de Jeová. Tenho de avisar pois tem gente que precisa de rótulos para poder bater um simples papo.

Vamos ao seu comentário.
A lei do talião não é base para vingança. Está mais para uma lei de reciprocidade. É uma penalidade do código de leis dos hebreus. E, como eu destaquei no texto, o hebreu comum estava impedido de tomar a lei em suas próprias mãos. Os casos de "olho por olho" tinham de ser submetidos ao julgamento dos magistrados, ou dos ancião de cada aldeia. A lei do talião (sem "t" maiúsculo) está mais para um balanceamento do que para a vingança.
Se é pra raciocinar dessa forma, o resultado é que: toda aplicação de qualquer lei poderia ser classificada como vingança. Sabemos que não é o caso. Certo?

Se você ler o Velho Testamento na íntegra, não verá um único caso em que o sentimento de vingança é incentivado. Se você achar um caso, é só me enviar. Já li a Bíblia algumas vezes, mas, pode ser que eu tenha deixar escapar alguma exemplo.
Be my guess!

O caso de Eliseu e os guris é questão de interpretação de texto. Logo, você pode ter razão. Não nego isso. Mas com base no que leio na Bíblia, o contexto esclarece muitas coisas.

Ao contrário do que eu disse no texto, o único que presenciou a subida de Elias foi Eliseu. Afinal, Elias disse que quem visse receberia uma porção dupla do espírito. Mas o relato se tornou conhecido, certamente através de Eliseu. Mas é significativo que o primeiro milagre público de Eliseu tenha sido exatamente esse de invocar o mal sobre os guris zombadores.
Como vejo um padrão na narrativa bíblica, percebo um detalhe: não há punições por razões triviais na Bíblia. Betel era uma cidade com histórico de malfeitorias. E o contexto do capítulo 2, sugere (veja bem, SUGERE) que o evento dos jovens atacados pelos ursos (algumas Bíblias dizem ursas) está diretamente relacionado ao evento imediatamente anterior.

De qualquer modo, desafio a qualquer um a me provar que o Velho Testamento é um livro pró-vingança.

Quanto ao Islã, não é curioso que o autor da Veja não tenha falado nada a respeito?

JCosta said...

Nao adianta fechar os olhos para o óbvio. Se as crianças deveriam ser punidas, nao acha a reação desproporcional demais? Até mesmo para a Lei de Talião, que especifica vários delitos e suas penas.

O Antigo Testamento tem sim, várias passagens sangrentas, de vingança, de lutas, etc.

Entretanto, deve ficar claro que, com a vinda de Jesus (narrada a partir dos Evangelhos) muda o contexto, ou seja, o perdão passa a ser ensinado como mandamento, por exemplo.

Li a reportagem da revista e concordo com o exemplo, de acordo com o foco da matéria.

O Velho Testamento não é um exemplo de paz e convivência entre os povos. Pra começar, Deus determina Moisés que ocupe uma terra prometida, mas que já estava habitada por outros povos...

Davi, após acertar Golias com a funda, decepou sua cabeça e exibiu seu troféu para os presentes (a cabeça de Golias).

Então, vamos deixar de hipocrisia...

Blogildo said...

Primeiro lugar, respeito! Hipocrisia é o cacete! Isso posto, vamos lá: Onde está a vingança em Davi matar Golias? Surtou, mermão? O país estava em guerra com os filisteus. Guerra é guerra, vingança é vingança. Não confunda as bolas, JCosta!

Não nego que o Velho Testamento tenha passagens de lutas e outras sangrentas. Estou falando de passagens sobre vingança. Se tem várias como você afirma, basta citar, sei lá, três passagens de vingança. E que tais passagens sejam, obviamente, favoráveis ao conceito de vingança. Guerra não vale! Aplicação da lei do talião, também não vale!

Não vou te chamar de hipócrita. Só de analfabeto bíblico!

Blogildo said...

Ah! E não acho que as crianças deviam ser punidas, JCosta. Também acho a resposta um tanto desproporcional. Mas isso nada tem a ver com o conceito de vingaça. Esse é meu ponto. O relato de Eliseu não PROVA que o Velho Testamente está 'repleto de passagens olho por olho'.
O fato de você achar desproporcional já indica que não é 'olho por olho' nesse caso. Certo?

João Batista said...

A matéria não se sustenta de pé. É possível arrasá-la ponto por ponto, mas eu desisti no segundo quarto ao perceber que era tempo demais para uma lição que ninguém aprenderia.

Mas vale a pena ressaltar um dos pontos: a tradução de Ésquilo está errada, e sim, já estava em Kennedy, porque Ésquilo não é um “sábio do perdão”, mas um pagão que não acredita na inocência da vítima, um autor de obras carregadas de vinganças justificadas. Pior, Ésquilo e Ezequiel concordam: a alma pecadora deve morrer (tenha a idade que tiver). Portanto, se Ésquilo é sábio, Ezequiel também é; a besta comprova a sabedoria bíblica ao tentar negá-la.

Aprendiz said...

Detalhe 1: A palavra usada para rapazes (que alguns supoem serem crianças) é a mesma que se refere a David quando enfrentou Golias, isto é abaixo da idade militar (20 anos). Mas os opositores da Bíblia gostam de imaginar que eram criancinhas de 5 anos ...

Detalhe 2: O contexto era de guerra religiosa, pois a rainha Jezabel, filha de um sacerdote fenício, lutava para desairragar a religião dos hebreus e implantar os cultos fenícios de sacrifícios humanos no seu lugar. Neste intento, matava os profetas de YWHW (que muitos hoje pronunciam Jeová) e obrigava o povo a participar dos cultos a Baal e outras entidades. A zombaria dos rapazes está ligada a sua oposição aos adoradores de YWHW, isto é eram aliados dos fenícios. E o contexto anterior realmente parece indicar que zombavam da possibilidade de um profeta de YWHW subir aos céus.