Sempre achei que Diná era a principal culpada pelo massacre da família de Siquém (Quem não conhece a história deve ler Gênesis 34). Agora mudei de idéia. Ainda acho que Diná deu bobeira, conforme mostra o texto bíblico. Mas a leitura que Thomas Mann faz do texto em "José e seus irmãos – vol 1" aprofunda algumas questões e torna o evento registrado na Bíblia muito mais significativo.
Um leitor atento – coisa que eu infelizmente ainda não sou – teria notado que os versículos 25 a 29 indicam que os filhos de Jacó estavam atrás de algo mais que mera vingança:
25. No terceiro dia, estando todos ainda doentes, os dois filhos de Jacó, Simeão e Levi, irmãos de Dina, tomaram cada um sua espada, penetraram na cidade, que de nada desconfiava, e mataram todos os varões. 26. Passaram ao fio de espada também Hemor e Siquém, seu filho; tiraram Dina da casa de Siquém e foram-se. 27. Os filhos de Jacó caíram impetuosamente sobre os mortos e assolaram a cidade, porque haviam ultrajado sua irmã. 28. Tomaram suas ovelhas, seus bois, seus jumentos e tudo o que havia na cidade como nos campos. 29. E levaram como espólio todos os seus bens, seus filhos, suas mulheres e tudo o que se encontrava em suas casas.
É claro que desde a primeira vez que li o texto percebi que houve o que mais tarde seria conhecido como 'reação desproporcional' da parte dos filhos de Jacó. Afinal, não se destrói toda uma comunidade por tão pouco. O fato que o texto de Gênesis deixa implícito – e Mann revela – é que os filhos de Jacó, Simeão e Levi, estavam de olho nos bens da comunidade de Siquém (observação: existe o jovem Siquém e a cidade homônima. Não vá se enrolar ao ler o texto).
Outra coisa que Mann observa é o fato de Jacó não participar da negociação de casamento de Diná. Realmente é de estranhar o fato de Simeão e Levi negociarem com Hemor (pai de Siquém) e Siquém as condições do casamento de Diná. Ora, o pai é quem deve fazer isso, não os filhos. O que teria motivado Jacó a deixar essa negociação nas mãos dos dois filhos que se revelariam verdadeiros bárbaros? O texto bíblico não esclarece. A explicação de Mann é simples e lógica (mas não dá pra ser conclusivo, claro): Jacó era um sujeito avesso a conflitos. Basta ver o modo como ele é descrito no Gênesis: homem que morava em tendas (Gênesis 25:27). Nesse versículo ele é contrastado com Esaú: homem do campo que gostava de caça. A trajetória de Jacó não deixa dúvida, ele evitava situações conflituosas mesmo que isso envolvesse prejuízo pessoal. Exemplo: Ele fez tudo o que o sogro quis para não se estressar. Deu boa parte dos seus bens para o irmão Esaú por puro medo e agora, nessa situação estranhíssima, deixava a negociação do casamento de Diná nas mãos de Simeão e Levi.
Pobre Diná! Seus irmãos, longe de pensarem no bem dela, estavam de olho nos bens daquela comunidade pagã e ingênua.
1) Recomendo o livro do Thomas Mann.
2) A Bíblia não “floreia” tanto quanto seus críticos afirmam a personalidade de seus heróis.
3) Dê um tempo com a Internet e vá ler a Bíblia.
Saturday, July 11, 2009
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